Autor: Maggie Lake (entrevistado: Kevin Muir)
Tradução: Shenchao TechFlow
Introdução do Shenchao: Sob a superfície calma do índice S&P, as ações americanas encenam uma cena emocionante de chutes furiosos debaixo d'água: a cesta de vencedores e perdedores de IA do Goldman Sachs despencou 55% em meio ano, enquanto as Magnificent 7 foram empurradas ao topo por fluxos de capital de refúgio, e a forte correlação negativa entre ações individuais mascarou artificialmente a volatilidade subjacente do índice.
O renomado veterano de hedge macro Kevin Muir aponta com perspicácia que a narrativa do mercado sobre os gastos de capital em infraestrutura de IA está passando por camadas de colapso e recuo: inicialmente alegava-se que era pago por fluxo de caixa livre abundante, depois degenerou para ser impulsionado por dívida de baixo custo, e agora, com os custos de empréstimo disparando, o mercado se autoanestesia com financiamento via emissão de ações, uma característica típica e perigosa do fim de uma bolha. Ao mesmo tempo, mecanismos micro de negociação representados por fundos de hedge quantitativos multiestratégia (Pod Shops) e hedge long-short sensível a impostos (TALS) estão fazendo com que um grande número de ações vendidas a descoberto sofra um corte lento e doloroso com faca cega que nunca se recupera.
Nesse tabuleiro macro distorcido, o capital inteligente não deve apostar cegamente no frenesi tecnológico com avaliações esgotadas, mas sim focar em ativos reais com maior taxa de acerto assimétrica: abraçar o Canadá, que está passando por um renascimento econômico e um boom de gastos de capital, e o mercado brasileiro, que foi injustamente penalizado pelo sentimento eleitoral e possui reservas globais de commodities críticas e elasticidade energética pró-cíclica.
Para os mercados financeiros, esta é uma semana extremamente crucial: uma enxurrada de relatórios de resultados importantes está prestes a ser divulgada, e a reunião de política monetária do Federal Reserve também chega conforme o esperado. A semana começou em alta, com a gigante de IA de fronteira Anthropic protocolando formalmente seu pedido de IPO (as ações de tecnologia comemoraram), enquanto a vitória eleitoral inesperada do presidente Lula nas eleições brasileiras provocou reações intensas (o mercado de ações brasileiro claramente não gostou).
Felizmente, o renomado analista macro Kevin Muir, autor do "The Macro Tourist", participou ontem do nosso podcast "Talking Markets", ajudando-nos a dissipar a névoa e esclarecer a lógica complexa por trás disso tudo...
Mercado Honey Badger
Imagem: O Honey Badger não se importa (Honey Badger Don't Care)
"Olhando ao redor, já surgiram um milhão de pequenos sinais de alerta piscando em vermelho perigoso no mercado, mas as pessoas parecem sempre encontrar uma desculpa após outra para ignorá-los", disse Kevin. "Na minha opinião, este é um mercado extremamente preocupante. Fico muito chocado que, diante de tudo isso, todos estejam se comportando com tanta complacência cega."
Um dos casos mais típicos é a evolução da narrativa em torno da fonte de financiamento da construção de infraestrutura de IA:
"Houve um tempo em que a narrativa dominante do mercado era que a bolha não importava em nada, porque tudo isso estava sendo pago por um enorme fluxo de caixa livre..."
"Depois, esse argumento degenerou para 'isso não importa, porque eles podem emitir títulos e tomar emprestado a custos extremamente baixos'... E agora, com a janela de empréstimos baratos fechada, eles começaram a se consolar dizendo: 'isso ainda não importa, porque eles podem se financiar emitindo ações.'"
Ocorreu uma enorme rotação setorial dentro do mercado
Kevin escreveu recentemente um relatório aprofundado (clique aqui para ler o original), no qual destacou os seguintes fatos-chave:
Em 22 de junho deste ano, a "Cesta de Vencedores vs Perdedores de IA do Goldman Sachs" (Goldman Sachs AI Winners vs Losers Basket) chegou a acumular alta de 94,2% no ano. No mesmo período, o índice Nasdaq subiu 21% e o S&P 500 subiu 10%.
No entanto, desde então, essa cesta de hedge do Goldman Sachs despencou 55% desde o pico, enquanto o Nasdaq caiu apenas 4% e o S&P 500 ficou praticamente estável... Ao mesmo tempo, as sete gigantes de tecnologia dos EUA (MAG 7) continuam "gritando em alta".
"Portanto, o ambiente em que estamos agora passou por uma enorme rotação setorial interna", explicou Kevin. "Debaixo d'água há uma turbulência violenta e revolvente, enquanto nos últimos seis meses o índice amplo mal se moveu."
Em outras palavras, a correlação entre ações individuais caiu a um ponto extremamente baixo. É como um cisne branco que parece elegante e sereno na superfície da água, mas debaixo d'água seus pés chutam furiosamente, levantando inúmeros respingos de lama.
"Essa correlação negativa extremamente forte entre ações individuais, no final, acabou suprimindo a volatilidade real do índice como um todo", disse Kevin. "Testemunhamos tanto derramamento de sangue e divergência violenta, mas o índice em si praticamente não saiu do lugar."
Então, o que exatamente causou essa grave falta de correlação? Kevin listou várias hipóteses teóricas de mercado diferentes, incluindo:
A IA é uma tecnologia revolucionária transformadora, e grandes tecnologias disruptivas frequentemente "acabam gerando mercados extremamente divergentes de forma semelhante". O grau de concordância de Kevin com essa visão é "só um pouquinho", mas ele atribui maior peso a...
...fundos de hedge quantitativos multiestratégia (Pod Shops): "Hoje há um grande número de participantes do mercado negociando de uma forma completamente diferente das décadas passadas. De repente, os traders não estão mais apenas comprados; em vez disso, cada posição comprada deles deve corresponder estritamente a uma posição vendida correspondente."
TALS (hedge long-short sensível a impostos): O robô de IA deu uma explicação muito simples sobre isso:
Imagem: Explicação do mecanismo de funcionamento da estratégia TALS (hedge long-short sensível a impostos)
“Quando uma das ações compradas em um par cai, o gestor do fundo a vende prontamente, travando instantaneamente a perda de capital para compensar impostos, e imediatamente a substitui por outra ação de referência com alta correlação”, diz Kevin, “e quando uma das ações vendidas a descoberto sobe, eles compram para fechar a posição e igualmente a substituem por um novo alvo de venda a descoberto.”
Se você notar que algumas ações estão sempre “caindo lentamente sem parar”, é muito provável que seja porque carregam “posições vendidas em proporção extremamente alta e que nunca foram realmente recompradas, e o motivo pelo qual os vendedores a descoberto demoram a recomprá-las se deve, em parte, justamente ao mecanismo de rebalanceamento da estratégia TALS”.
Kevin enfatiza que o cerne da questão é que esse padrão de operação está “criando todo tipo de graves distorções microestruturais no mercado”.
Renascimento econômico do Canadá?
Há mais de um ano, Kevin escreveu um artigo sobre a lógica central para uma visão otimista sobre o Canadá (clique aqui para ler).
A lógica de sua análise na época era que, independentemente de quem acabasse eleito para governar, se Mark Carney ou Pierre Poilievre, “o pêndulo político e econômico deste país está oscilando para a direita e avançará com mais seriedade e rigor na reforma econômica, adotando todas as medidas pragmáticas necessárias”, aponta Kevin.
“E foi exatamente isso que aconteceu. Mark Carney não é de forma alguma aquele tipo de ambientalista radical totalmente desconectado da realidade. O líder anterior não passava de um professor de ensino médio, enquanto Carney é um verdadeiro peso-pesado que realmente entende profundamente de finanças e de operações de capital.”
“No último ano, o mercado canadense pode ser descrito como uma trajetória de alta constante”, diz Kevin, “muitas pessoas não percebem que o desempenho real do mercado de ações canadense já superou de forma abrangente o índice S&P 500.”
“É inegável que o impulso dos conflitos geopolíticos às ações de energia realmente deu uma contribuição importante, mas a realidade mais fundamental é que o Canadá está implementando rigorosamente as mudanças necessárias para ativar sua própria economia… o ambiente de negócios de todo o país está se tornando mais favorável às empresas.”
No entanto, ele mantém uma postura relativamente negativa em relação ao setor bancário canadense, pois considera que a avaliação atual das ações dos bancos está tão alta que se descolou dos fundamentos.
“Portanto, vender a descoberto ou vender os bancos domésticos canadenses, comprar matérias-primas básicas, comprar a economia real e, ao mesmo tempo, continuar comprando na baixa ativos relacionados à energia e afins”, sugere Kevin, “se você quiser montar um par de operações perfeito (Pairs Trade) no mercado canadense, o atrativo dessa estratégia no momento é provavelmente sem precedentes.”
Trechos dos principais pontos de vista de Kevin
“Muitas vezes, as pessoas são extremamente propensas a confundir uma boa empresa com um bom investimento… há uma diferença essencial entre os dois.”
“Desde quando começamos a acreditar ingenuamente que o governo realmente pode controlar o mercado como bem entender, conforme alega? As forças do mercado são muito maiores do que qualquer pessoa, nem mesmo um presidente é exceção… Eu de forma alguma acredito que, no futuro, em caso de queda brusca, o governo estenderá a mão para implementar qualquer resgate às ações do conceito de IA.”
A vitória eleitoral de Lula realmente pegou o mercado de surpresa, mas “a força dos parlamentares eleitos no Congresso já está significativamente inclinada para a direita… É verdade que seria naturalmente mais ideal ter no comando um líder que abrace plenamente o livre mercado, mas a tendência macroeconômica real está evoluindo nessa direção…”
“Considero a queda brusca de pânico de hoje uma excelente oportunidade de comprar na baixa. Na verdade, já entrei e comprei em grande escala na abertura do mercado hoje.”
“Estou firmemente otimista de que o setor de energia verá uma forte onda de compras inesperada em um período futuro, especialmente no segmento de petróleo bruto”, afirma Kevin, “como o cenário geopolítico global se tornou mais volátil e imprevisível, a escala de estoques estratégicos que cada Estado soberano precisa reservar deve aumentar significativamente.”
“Essa é precisamente a lógica central pela qual se deve alocar Brasil e Canadá em um portfólio, porque esses dois países possuem e continuam produzindo os recursos-chave que o mundo inteiro terá de acumular com todas as forças quando entrar em incerteza no futuro.”
“Esse indicador mede a suficiência de recursos dos fundos de pensão, e atualmente estamos no estado de maior suficiência de recursos desde 2007.” De arrepiar. Clique aqui para ver o relatório detalhado dos dados.
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Agradecemos a todos os espectadores que assistiram à transmissão ao vivo! Voltaremos na quarta-feira junto com Dale para fazer uma análise aprofundada da mais recente decisão de taxa de juros do Federal Reserve.
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